Desde que a Ana lançou o desafio Convidei para jantar… uma personagem da literatura ou cinema que a ideia  não mais me saiu do pensamento.

A intenção pareceu-me brilhante! São tantas as personagens ficcionais de quem tenho ficado cativa. Algumas tornam-se tão reais na minha mente que chego a questionar a minha sanidade mental!

Quando descobri a Renée senti uma empatia imediata. A ideia de uma porteira culta é de facto divertida, irónica e emotiva. Há dias em que me apetecia ser como ela, ter uma ocupação que me permitisse ser quase invisível, votada ao silêncio, entregue às leituras, bebericando chávenas de chá consoladoras.

Convirjo com a Renée na paixão pela pintura naturalista holandesa, por Tolstoi, por (algum) cinema japonês e na devoção pelos livros.

Ela é cultíssima e autodidata, esconde-se na figura humilde de porteira e faz isso de forma quase satírica e com muito humor. Tem o privilégio de o fazer no edifício de um bairro rico de Paris, habitado por uma burguesia rica mas também snobe, e assim a entrada do seu prédio foge do cliché «cheirar ao cozido, à sopa de couves ou à feijoada…»

Gostava de a convidar para partilhar uma refeição comigo. Para ouvi-la, essencialmente. A dissertar sobre Filosofia. A ironizar sobre as snobeiras dos moradores do seu prédio.

Preparava uma mesa simples mas com alguma elegância. Porque ela é uma Senhora. Com flores e velas, claro. Com um bule para o chá com que remataríamos a refeição, não sem antes lhe dar um licor de amora açoriano.

E embora os gostos dela sejam refinados, escolheria comida conforto para que o ambiente fosse intimista, familiar e despretensioso. Mas ainda assim, transformaria uma simples perca, em algo mais suculento, porque ela também não estaria à espera do básico.

Não seria fish and chips, mas uma interpretação pessoal do mesmo. Batatas fritas fingidas com alecrim, acompanhando perca envolta em bacon e açafrão, com uma salada de tomate cereja assado com agrião, vinagrete de framboesa e amendoins torrados.

Ela iria sorrir e remeter para o Mark Twain e lembrar-me que o Tom Sawyer e o Huckleberry Finn adoravam perca com bacon. E eu iria ficar a pensar como esses personagens contribuíram para que a minha infância fosse uma época tão feliz! E que afinal também gostava de os ter à mesa. E claro, haveria espaço para eles, para as travessuras cândidas daqueles dois…

A receita então:

Cortar as batatas em retângulos uniformes. Colocar num tabuleiro envolvidas num fio de azeite, pedras de sal e alecrim. Levar ao forno cerca de 30 minutos a 200º.

Entretanto, numa frigideira colocar um pouco de azeite. Quando aquecer, polvilhar com uma colher de açafrão das índias e deixar soltar o aroma. Depois, colocar as postas de perca, envoltas em tiras de bacon, presas com palitos. Deixar cerca de 2 minutos de cada lado. Transferir para um prato de forno, com o azeite aromatizado com o açafrão e colocar algumas pedras de sal e os tomates cereja. Levar ao forno cerca de 10 minutos.

Preparar a salada. Folhas de agrião, o tomate cereja assado, regar com vinagrete de framboesa e rematar com amendoins ligeiramente torrados  e partidos grosseiramente.

Na altura de servir, polvilhar generosamente o peixe com funcho picado que lhe dará um sabor anisado.

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