Quando surgiu o desafio “Convidei para jantar uma mente brilhante…”, criado pela Ana e recebido, este mês, no Reino da Prússia tive alguma dificuldade em escolher o convidado. Comentei cá por casa que era o maior desafio de sempre e provavelmente a primeira vez que não iria participar. Queria trazer um dos homens mais brilhantes da história da humanidade. Uma mente superior, um ser especial e surpreendente.

De tempos em tempos, o Céu envia-nos  alguém que não é apenas humano, mas também divino, de modo que através de seu espírito e da superioridade de sua inteligência, possamos atingir o Céu. (Vasari).
Estou obviamente a falar de Leonardo da Vinci. O homem que foi pintor (quem não se comove com a Virgem dos Rochedos?), inventor, cientista, anatomista, engenheiro, arquiteto, escultor, matemático, cozinheiro… Cinco séculos depois continuamos fascinados pela sua inteligência brilhante.
Por todas estas razões não me pareceu possível trazer a esta mesa da Vinci, a mente mais brilhante!
O convite não partiu de mim, mas de quem sabia a admiração que tenho por ele. E foi assim que num início de tarde muito tranquilo, enquanto começava a preparar o jantar, senti uma leve pancada na porta. Sim a campainha estava avariada. (Nada que o meu convidado não viesse a resolver antes de se despedir). Quem seria? Não esperava ninguém.
Sobre a banca já estavam os legumes que ia usar para a sopa. Para o prato principal tinha uma salada de feijão frade e cavala para lembrar o verão que teima em se esconder.
Abri a porta e fiquei sem palavras. Os cabelos compridos e as vestes da época remeteram-me imediatamente para o seu auto-retrato. Nem queria acreditar!
Entre por favor. Não contava com o senhor. Mas é com enorme gosto que o recebo – balbuciei entre o nervoso e o deslumbramento.
Disseram-me para vir jantar, mas estou a ver que vamos é ter uma aula de anatomia – disse Leonardo enquanto olhava a couve flor depositada na banca e que lembrava um cérebro.
Não, desculpe. Aquilo são os legumes para a sopa. Creme de couve-flor e alho francês com tomate seco – disse-lhe eu um pouco constrangida.
Ah sim. Sabe, estou um pouco cansado dos olhos. Já não sou o que era! – desdramatizou o génio.

A conversa foi acontecendo na cozinha enquanto eu me esforçava por não amputar nenhum dedo enquanto preparava tudo. Não perdi a oportunidade de o questionar sobre a obra da sua vida, nas mais diversas áreas. Claro que foi falando de outros nomes sonantes com quem se foi cruzando, o mestre Verrocchio, Michelangelo, o Duque de Milão Ludovico Sforza e tantos outros que marcaram a História Universal.

Também falámos do seu livro de culinária e mostrei-lhe a minha admiração pelas inovações que introduziu na culinária, bem como os utensílios que criou para facilitar alguns procedimentos e as regras de etiqueta que já tinha muito presentes.

Depois servi o jantar. O tal creme, a saladinha e antes de me socorrer de um gelado que permanecia no congelador, já ele dormitava, recostado na cadeira, serenamente. Deixei que descansasse até lhe apetecer. Despediu-se e deixou a campainha a funcionar!

Creme de couve-flor com alho francês e tomate seco

(para 3 adultos e 2 crianças)

2 couve-flor pequenas

1 tomate seco

1 alho francês

2  cebolas  médias

4 dentes de alho

azeite

sal

2 colheres de sopa de polpa de tomate

1 ramo mangerona

sal q.b

água q.b

azeite

3 ovos cozidos picados para servir

Como fiz:
Levei a cebola grosseiramente picada a  refogar no azeite quente. Quando ficou transparente, juntei o alho picado e o alho francês em rodelas.
Depois acrescentei a couve-flor e os pedaços de tomate. Cobri com a água quente e deixe levantar fervura.
Temperei com sal a gosto e as folhinhas de mangerona. Deixei cozinhar cerca de  20 minutos com a panela tapada. Passei com a varinha mágica até ficar cremosa e aveludada. Servi com ovos cozidos picados.